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Refúgio de Alcatrazes abre para visitação pública
19/12/2018


Realizado no último domingo (16), mergulho inaugural contou com a presença de mais de 100 pessoas, incluindo 40 mergulhadores

 Mobilização social, conservação ambiental e gestão eficiente. Essas são algumas das características que deram origem ao Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago dos Alcatrazes, Unidade de Conservação (UC) criada em 2016 após décadas de reivindicação de vários setores. Agora, a área está aberta para visitação pública e a sociedade poderá realizar atividades, como mergulho recreativo e visita embarcada com mergulho de flutuação. Usos esporádicos, como eventos náuticos de baixo impacto, também poderão acontecer por meio de autorizações especiais.

Alcatrazes pretende comprovar como é possível obter benefícios econômicos e socioambientais através do turismo em área protegida. O planejamento da Unidade de Conservação (UC) visa uma análise constante da operação de visitação, o que pode ser um diferencial para a região se tornar modelo de turismo em áreas protegidas.

“Após tanto tempo de espera e mais de um ano de preparação, somente agora a ficha caiu. Enfim, Alcatrazes está de volta à sociedade. O mergulho de hoje tem um simbolismo muito forte e isso que nos deixa felizes. Agora, é seguir com nosso planejamento para um turismo de qualidade e sucesso“, comemorou Kelen Leite, chefe do Núcleo de Gestão Integrada Alcatrazes do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão responsável pela gestão das áreas protegidas federais brasileiras.

Outro que comemorou bastante foi Vicente Albanez, mergulhador que na década de 1970 chegou a praticar o esporte em Alcatrazes, mas aguardava mais de 30 anos por essa abertura. “Não queríamos que esta área fosse aberta apenas para nosso uso, mas que a sociedade pudesse conhecê-la e preservá-la“, destacou ele.

O binômio uso público e área protegida foi muito comentado entre os presentes. Para Ricardo Barros, instrutor de mergulho e um dos condutores autorizados a operar em Alcatrazes, a visitação será fundamental para garantir a conservação do local. “Quanto mais gente estiver no local, mais inibiremos práticas ilegais como a pesca que ocorre aqui. Mergulhar neste local é certeza de encontrar peixes vovôs (em alusão ao tamanho dos peixes encontrados em Alcatrazes que alcançaram a fase adulta), coisa que não vemos em todo lugar“, destacou ele.

Para a Fundação SOS Mata Atlântica, que apoia a gestão de Alcatrazes em parceria com a Brazilian Luxury Travel Association (BLTA), a partir de um acordo de cooperação com o ICMBio, o uso público é uma das estratégias mais bem sucedidas para engajar a sociedade na conservação ambiental.

“Existe um conceito antigo que trata da relação entre o conhecer e preservar, e isso é verdade. Concordamos com o uso público em Unidades de Conservação (UCs) com ações bem planejadas e implementadas, como aqui em Alcatrazes, pois isso contribui para a conservação ambiental dessas áreas, para o engajamento da sociedade na defesa de suas áreas protegidas e também para a economia regional“, destaca Diego Igawa, biólogo da Fundação SOS Mata Atlântica para Proteção do Mar.

Entre os participantes do mergulho inaugural também estavam profissionais da área de turismo interessados no novo atrativo da região. Mas, entre o grupo, uma profissional tinha um olhar diferente. A empreendedora Andrea Sarno, que trabalha com gestão do estresse e técnicas para as pessoas se acalmarem, também foi uma das mergulhadoras. Estava ali para entender como Alcatrazes pode proporcionar uma bela conexão com a natureza.

“Este local é extremamente preservado. Ao mergulhar aqui vi diversas espécies, como tartarugas marinhas, raias, entre outras. Ouço falar de Alcatrazes desde criança, mas como era proibido nunca tinha vindo ao local. Tem muita vida ainda intocada lá embaixo. Isso dá  uma ótima sensação nas pessoas, desde adrenalina até a vivência na natureza, o que desacelera qualquer um“, afirma ela.

Para manter o arquipélago cada vez mais preservado, uma outra iniciativa apoiada pela Fundação SOS Mata Atlântica acontece no local. A partir de um edital patrocinado pela Repsol Sinopec Brasil para apoiar projetos que visam aumentar o conhecimento, o engajamento e a presença da sociedade em áreas protegidas, a organização apoia uma ação do Laboratório de Ecologia e Conservação Marinha da Universidade Federal de São Paulo (LABECMar-Unifesp) que, em parceria com o ICMBio, monitora, desde 2015, a biodiversidade marinha do Arquipélago de Alcatrazes.

O objetivo do projeto é promover uma gestão baseada no conhecimento científico e aprendizado contínuo sobre as UCs. Para isso, os pesquisadores estão analisando o comportamento das espécies marinhas e a estrutura dessas comunidades biológicas, estabelecendo uma linha de base para comparação com o cenário pós-visitação. Além disso, farão entrevistas com os visitantes que conhecerem o local para identificar o perfil e o comportamento desse público e as oportunidades de melhoria da experiência dos turistas.

“O programa de monitoramento é fundamental para compreender se as áreas protegidas estão alçando os objetivos para os quais elas foram criadas e apoiar a tomada de decisão frente a novos desafios, como a abertura da visitação no Refúgio de Alcatrazes. Neste contexto, o monitoramento irá permitir avaliar a biodiversidade antes e após o início da visitação“, afirma Fabio Motta, professor adjunto da Unifesp.

No momento, Alcatrazes pode receber 16 embarcações simultaneamente, uma em cada poita (local para atracar) sempre com autorização prévia – barcos particulares são proibidos. Foram instaladas poitas no local, para evitar o impacto ambiental no mar caso os barcos utilizassem âncoras.

Após o primeiro ano de visitação, o ICMBio chegará ao número exato de pessoas e embarcações que podem visitar Alcatrazes, considerando as conclusões do estudo de impacto ambiental da visitação. Até agora, três empresas autorizadas já operam na reserva, mas em março a expectativa é que esse número passe a ser oito. No total, 32 empresas estão cadastradas para operar na região – aquelas ainda não autorizadas estão se adequando às normas definidas pelo órgão gestor da área e normas de segurança de navegação.

Empresas de Bertioga, Ilhabela, Santos e São Sebastião devem operar em Alcatrazes.  A lista dos operadores autorizados está disponível no site do Refúgio de Alcatrazes, http://www.icmbio.gov.br/refugiodealcatrazes, e será atualizada sempre que novas embarcações estiverem aptas a iniciar as atividades.

Beleza de Alcatrazes

Como uma das maiores áreas protegidas marinhas de proteção integral das regiões Sul e Sudeste do Brasil, o Refúgio de Alcatrazes possui 674 km² e protege espécies ameaçadas, endêmicas e migratórias no litoral norte do Estado de São Paulo. No local, 1.300 espécies de flora e fauna são protegidas, 93 delas sob algum grau de ameaça. Lá também são protegidas 259 espécies de peixes, destacando-se a garoupa e o tubarão-martelo. Há ainda presença considerável da tartaruga-de-pente e da tartaruga-verde, ambas ameaçadas de extinção.

A região é área de ocorrência de baleias e golfinhos, sendo ao todo 10 espécies registradas. É ainda uma das regiões de reprodução de aves marinhas, abrigando o maior ninhal de fragatas do Atlântico Sul, além de um dos maiores ninhais do país com nidificação de atobás e gaivotões, chegando a registrar mais de 100 espécies de aves. Os paredões graníticos de 316 metros de altura no meio do oceano impressionam os navegantes por sua beleza e suas águas, com boa visibilidade e grande quantidade de vida marinha, são um convite ao mergulho contemplativo.

Segundo Alan Piccinin, fotógrafo subaquático que também mergulhou na região, Alcatrazes é um dos pontos com mais vida marinha que já conheceu.

“Alcatrazes tem muita vida em um mesmo lugar, é espetacular. Arrisco dizer isso, pois já mergulhei em diversos lugares, inclusive faço palestras sobre os melhores destinos de mergulho  do Brasil“, afirma ele.


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