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Viva a restauração da Mata Atlântica

Cerimônia alerta sobre grave momento do país e homenageia quem recupera florestas

4 de junho de 2021

Por Eduardo Geraque

O plantador de árvores Hélio da Silva, que vive na zona leste de São Paulo, e o fotógrafo Sebastião Salgado, cidadão do mundo, têm um ponto em comum, como mostrou a cerimônia do Viva a Mata 2021 – Nosso Tempo Mais Verde, que este ano, por causa da pandemia, ocorreu de forma virtual. Enquanto o morador paulistano criou praticamente sozinho um parque linear com 25 mil árvores ao longo de um trecho de seis quilômetros, Salgado tem a ambição, nas próximas quatro décadas, de recuperar toda a bacia do Vale do Rio Doce, uma área com mais ou menos o tamanho de Portugal. “A ideia é plantar pelo menos 120 milhões de árvores para recuperar todas as nascentes da região”, afirma o fotógrafo. O plantador de árvores da capital paulista também dá uma lição de amor à natureza: “Os homens um dia vão entender as árvores. Elas sequestram carbono e prestam muitos serviços”, diz o aficionado pelas plantas, um dos homenageados da noite. 

Salgado fez uma participação no início do evento direto de Paris, onde mora, e foi entrevistado pela apresentadora Marina Person. Ele falou sobre a forma como o Brasil é visto atualmente no exterior – de maneira negativa em razão da desastrosa política ambiental – e contou sobre a atuação do Instituto Terra, do qual ele e sua esposa Lélia são fundadores.

Já o casal Regina Casé e Estevão Ciavatta, que idealizaram um projeto de crowdfunding para a restauração de mata ciliar no rio Una, na bacia do Paraíba do Sul; a empresa Ypê, que alcançou 1 milhão de árvores nativas plantadas,  e o Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, que tem como objetivo recuperar 15 milhões de hectares do bioma até 2050, fizeram companhia ao senhor Hélio na seleta lista de homenageados da noite.

Ao ser homenageada, Regina Casé declarou sua paixão pela Mata Atlântica. Ela, que é do Rio de Janeiro e vive entre o Rio e a Bahia, ressaltou a importância desse bioma para nossa cultura. “Tudo que eu canto e eu danço, nos programas que a gente faz, aquilo tudo vem da Mata Atlântica. Sem as árvores e a diversidade da Mata Atlântica eu acho que a gente não ia ter os instrumentos, as bebidas, as músicas, o jeito da gente de ser. Eu realmente devo toda a minha cultura, o meu trabalho e a minha percepção de mundo à Mata Atlântica”, afirmou. 

A atriz também destacou a necessidade de as crianças brasileiras conhecerem essa floresta que é a casa de 70% da população. Segundo ela, seu filho já aprendeu sobre ornitorrinco, por exemplo, e outros animais do exterior na escola, o que é ótimo – mas considera que é preciso conhecer mais também sobre as espécies do nosso próprio país. 

Waldir Beira Júnior, presidente da Ypê, ressaltou a colaboração com a SOS Mata Atlântica desde 2007, ininterruptamente, com o plantio de árvores e recomposição de florestas. “Esse é um legado que nos deixa muito felizes e satisfeitos. E que deixa como herança a qualidade de vida para as gerações futuras, ressaltando que plantar árvores significa também plantar água”, afirmou.

Antes da fala de Beira Júnior, foram apresentadas algumas áreas e proprietários de terra beneficiados com o plantio patrocinado pela empresa e concretizado pela ONG. “Eu não sabia que a Ypê também era patrocinadora desses projetos e eu fico mais feliz ainda que existem empresas engajadas. Hoje, a gente consegue enxergar um aumentozinho do volume de água, que vai desembocar no Rio Una, que abastece a cidade. Então, eu acho que estou fazendo a minha parte”, disse a médica Elise Kamagushi.  

O Viva a Mata 2021 teve o apoio da FecomercioSP, Globo e Suzano.

Logo no início do evento, um vídeo mostrou toda a exuberância da Mata Atlântica e contou com uma trilha emocionante do DJ Alok, que também gravou uma mensagem para o público.

Recuperação urgente

Todos os homenageados da noite têm exemplos bem-sucedidos de restauração florestal, que por si só contribuem muito para a Mata Atlântica respirar, mostram um caminho que deve ser seguido para o todo o bioma, que continua bastante pressionado – conforme contou Luís Fernando Guedes Pinto, diretor de Conhecimento da SOS Mata Atlântica.

“Precisamos agir rápido e isso exige ambição e ousadia. Temos que diminuir o desmatamento e também restaurar a Mata Atlântica. Com isso será possível sequestrar carbono em alta velocidade”, afirma Guedes Pinto. 

Além da questão climática, o bioma Mata Atlântica também é importante por causa da biodiversidade, conforme lembrou, durante a cerimônia, o primatólogo Russell Mittermeier, chefe de biodiversidade da ReWild e ex-presidente da Conservação Internacional. “Nós temos 36 hotspots de biodiversidade no planeta e a Mata Atlântica está entre os 5 mais importantes. Nessas áreas temos 50% das plantas do globo e 50% dos vertebrados endêmicos. Se os perdemos, grande porcentagem da vida também vai se perder”, afirmou o cientista. “No caso da Mata Atlântica, temos os muriquis, por exemplo, primatas que estão para o Brasil assim como o panda-gigante está para a China”, compara o pesquisador. Ambos estão ameaçados de extinção.

Restauração também foi o tom dos pronunciamentos de cinco ex-ministros de Meio Ambiente que estiveram no Viva Mata 2021. “A conscientização e a conservação dos biomas é fundamental, e para isso é preciso também uma presença forte do poder público”, afirma José Goldemberg, que ocupou a ainda secretaria federal de meio ambiente em 1992. Carlos Minc e Sarney Filho também se manifestaram a favor da restauração e conservação do bioma.

Um discurso contundente foi feito pela ex-ministra Izabella Teixeira, uma das responsáveis pelas articulações internacionais para a conclusão do Acordo de Paris. “A minha fala aqui é de resiliência e resistência. O Brasil não é esse retrocesso que está aí. Isso nos tira do mundo. A relação com a natureza é um ativo geopolítico importante deste século. Precisamos ambicionar a restauração e a preservação. O tripé da minha trajetória sempre foi cooperação internacional, participação da sociedade civil e ciência. Não podemos perder isso agora. Essa nossa gente bronzeada precisa mostrar o seu valor”, brincou Izabella, mostrando um chapéu que ela comprou no quiosque da SOS Mata Atlântica instalado no Aterro do Flamengo durante a Rio-92. Ao lado do martelo com que o Acordo de Paris foi sacramentado. 

Entre apresentações gravadas de casa da cantora Mônica Salmaso, algo que ela tem feito com maestria desde o início da pandemia, Pedro Luiz Passos, presidente da SOS Mata Atlântica, instituição que em setembro comemora 35 anos de vida, não deixou de marcar posição em relação ao grave momento que o país está vivendo. 

“Infelizmente, a situação continua crítica e agravada pelos sucessivos ataques a esse patrimônio nacional que é a Mata Atlântica e pelo próprio governo federal que atua na área ambiental expondo o seu firme propósito de desmontar os arranjos institucionais construído ao longo de anos através de um processo democrático que vem desde a Constituição de 88. Nunca se viu tamanho estrago e a explicação deve passar pelas palavras incompetência, falta de visão de entendimento, má-fé ou talvez outras que não caibam nesta noite”, afirmou Passos. 

O executivo lembrou que a irresponsabilidade na gestão ambiental hoje tem graves impactos globais. “Ela coloca o país de quatro nas negociações internacionais”.

O presidente da SOS Mata Atlântica, para não ser exaustivo, listou uma série de problemas que vieram à tona com o atual governo, como o desmonte dos órgãos ambientais, à exemplo do  Ibama, o recorde de queimadas, o aumento do desmatamento, além da própria negação de dados gerados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. “Houve ainda a descaracterização da proteção de restingas e mangues, o negacionismo climático e a incrível redução da participação da sociedade nos conselhos ambientais”, afirmou. Ele também lembrou das ameaças aos povos indígenas, da criminalização das ONGs e os questionamentos sobre a lei da Mata Atlântica. 

“Preciso lembrar que essa boiada foi anunciada diante de toda a cúpula do governo e do presidente da República, que aceitou essa estratégia, aliás muito bem sucedida, para nos colocar como pária ambiental aos olhos do mundo. É uma visão retrógrada e pequena que inclusive impacta a produção do agronegócio”, ressaltou.

Apesar de tudo, Pedro afirmou cultivar o otimismo. “Estamos confiantes de que isso vai passar e a SOS Mata Atlântica vai continuar com a sua missão de trazer conhecimento e mobilizar a sociedade para influenciar políticas públicas”.

Missão, que como lembrou Mario Mantovani, Advocacy da SOS Mata Atlântica, vem desde os anos 1980. “A SOS Mata Atlântica é uma entidade de gente. Pessoas que buscam construir cada momento dessa história. Os nossos momentos vêm desde a Constituição de 1988, quando a gente buscava fazer aquele capítulo de meio ambiente colocando a Mata Atlântica como patrimônio nacional. Depois disso, avançamos tanto, foram tantas histórias boas, como a luta pela defesa da Mata Atlântica que lançamos na Eco 92. Chamamos a atenção das pessoas que precisávamos de uma lei. Conseguimos milhares de assinaturas. Ocupamos o Congresso Nacional e fomos para as ruas nas cidades do Brasil. Isso se transformou na Lei da Mata Atlântica. Uma mudança de paradigma. Trouxemos também a água para dentro da SOS com o rio Tietê. Depois, a Lei dos Crimes Ambientais, a Lei de Biodiversidade. Conseguimos grandes conquistas até esse momento e avançamos com a Frente Parlamentar Ambientalista”, afirmou o ambientalista.

Agora, segundo ele, o momento é de construir e implementar os planos municipais da Mata Atlântica, que leva a lei até o município e ajuda no planejamento das cidades. E essa luta que vai agora desde os municípios até Brasília também é feita nas trincheiras legais, com apoio de senadores, deputados e membros do Ministério Público, segundo Malu Ribeiro, a nova diretora de Políticas Públicas da SOS Mata Atlântica. 

“Essa bandeira da SOS Mata Atlântica é muito mais do que assumir a defesa do meio ambiente, é assumir a defesa da vida, é assumir que política pública se faz por meio da cidadania. Não vai ter caneta, não vai ter parecer, não vai ter boiada que vai passar por cima da Mata Atlântica. Nós vamos devolver o verde a essa bandeira. Temos que ter a capacidade de não perder a nossa indignação. Não se rasga a Constituição de 1988 que tem um capítulo inteiro sobre o meio ambiente. Vamos juntos com os nossos parceiros,  como os que estão no Congresso e no Ministério Público”, completou Malu, que encerrou o evento com a leitura de um manifesto da Fundação. 

Novo Chamado pela Mata Atlântica

Reviver as nascentes, reduzir as emissões, recuperar as florestas, revitalizar os parques e resguardar a biodiversidade!

Reverter os estragos, reagir aos abusos e rechaçar a irresponsabilidade.

Reafirmar nossa missão, redobrar os esforços e reforçar nossa ambição.

Repelir a devastação, as queimadas, o desmatamento e o negacionismo.

Reunir parceiros, reagrupar voluntários e militantes.

Reconhecer doadores e recrutar mais empresas pelo bem comum.

Resistir aos retrocessos e repudiar os crimes ambientais.

Reabrir diálogos e repactuar compromissos para regenerar a vida.

Realizar. Renovar. Reinventar.

Restaurar a Mata Atlântica.

Redesenhar o futuro de um dos biomas mais importantes do planeta.

Reequilibrar o clima e o meio ambiente. 

Vamos juntos, RECONSTRUIR.

 

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