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Desmatamento da Mata Atlântica cresce quase 60% em um ano
26/05/2017


A Fundação SOS Mata Atlântica e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) divulgam nesta segunda-feira (29) os novos dados do Atlas da Mata Atlântica, referentes ao período de 2015 a 2016. A iniciativa tem o patrocínio de Bradesco Cartões e execução técnica da empresa de geotecnologia Arcplan.

O estudo aponta o desmatamento de 29.075 hectares (ha), ou 290 Km2, nos 17 Estados do bioma Mata Atlântica – representando aumento de 57,7% em relação ao período anterior (2014-2015), referente a 18.433 ha. Acesse o estudo na íntegra aqui.

Marcia Hirota, diretora-executiva da SOS Mata Atlântica, observa que há 10 anos não era registrado no bioma um desmatamento nessas proporções. “O que mais impressionou foi o enorme aumento no desmatamento no último período. Tivemos um retrocesso muito grande, com índices comparáveis aos de 2005”, disse. No período de 2005 a 2008 a destruição foi de 102.938 ha, ou seja, média anual de 34.313 ha.

mapa_Brasil_atlas

Neste levantamento, a Bahia foi o estado que liderou o desmatamento com decréscimo de 12.288 ha – alta de 207% em relação ao ano anterior, quando foram destruídos 3.997 ha. Dois municípios baianos – Santa Cruz Cabrália e Belmonte – lideram o ranking dos maiores desmatadores, com supressão de 3.058 ha e 2.119 ha, respectivamente. Se somados aos desmatamentos identificados em outras cidades do Sul da Bahia, como Porto Seguro e Ilhéus, cerca de 30% do total do bioma foi destruído nessa região, que historicamente é conhecida pela chegada dos portugueses e pelo início da colonização do país. “Essa região é a mais rica do Brasil em biodiversidade e tem grande potencial para o turismo. Nós estamos destruindo um patrimônio que poderia gerar desenvolvimento, trabalho e renda para o estado”, complementa Marcia.

mapa_estados_BA_atlas

Um sobrevoo realizado por técnicos da SOS Mata Atlântica, em 16 de maio deste ano sobre os municípios de Santa Cruz Cabrália e Belmonte, constatou queimadas em floresta, conversão da floresta em pastagens e processos de limpeza de áreas onde o entorno apresenta forte atividade de silvicultura.

A vice-liderança do ranking do desmatamento da Mata Atlântica ficou com Minas Gerais, com 7.410 ha desmatados, seguido por Paraná (3.453 ha) e Piauí (3.125 ha).

Em Minas Gerais, os principais pontos de desmatamento ocorreram nos municípios de Águas Vermelhas (753 ha), São João do Paraíso (573 ha) e Jequitinhonha (450 ha), região reconhecida pelos processos de destruição da Mata Atlântica para produção de carvão ou pela conversão da floresta por plantios de eucalipto. Minas liderou o ranking em sete das últimas nove edições do Atlas da Mata Atlântica, sempre com municípios dessa região figurando na lista dos maiores desmatadores.

Já no Paraná, os índices de desmatamento voltaram a subir pelo segundo ano consecutivo, passando de 1.988 ha destruídos entre 2014 e 2015 para 3.545 ha entre 2015-2016, aumento de 74%. E um alerta continua: a destruição concentra-se na região das araucárias, espécie ameaçada de extinção, com apenas 3% de florestas remanescentes.

No Piauí, os maiores desmatamentos ocorreram em Manoel Emídio (1.281 ha), Canto do Buriti (641 ha) e Alvorada do Gurguéia (625 ha), municípios limítrofes entre si e próximos ao Parque Nacional Serra das Confusões. Esse é o quarto ano consecutivo que o Atlas registra padrão de desmatamento nesses municípios que ficam numa importante região de fronteira agrícola, que concentra a produção de grãos e é também área de transição entre a Mata Atlântica, o Cerrado e a Caatinga.

Para Mario Mantovani, diretor de Políticas Públicas da Fundação SOS Mata Atlântica, a situação é gravíssima e indica uma reversão na tendência de queda do desmatamento registrada nos últimos anos. E, para ele, não é por acaso que os quatro estados campeões de desmatamento são conhecidos por sua produção agropecuária.

“O setor produtivo voltou a avançar sobre nossas florestas, não só na Mata Atlântica, mas em todos os biomas, após as alterações realizadas no Código Florestal e o subsequente desmonte da legislação ambiental brasileira. Pode ser o início de uma nova fase de crescimento do desmatamento, o que não podemos aceitar”, destaca.

Segundo ele, a ofensiva continua com a tentativa de flexibilização do licenciamento ambiental e diversos ataques ao Sistema Nacional de Unidades de Conservação.

“No momento em que o caos está instalado em Brasília, numa crise política que tem no seu centro a maior empresa de carnes do mundo, a bancada do agronegócio e o núcleo central do governo federal avançam, de forma orquestrada e em tempo recorde, sobre o nosso sistema de proteção ambiental. A sociedade não pode ficar alheia às decisões tomadas por nossos governantes e legisladores. Precisamos nos mobilizar para frear o desmonte da nossa legislação”, conclui.

Mangue e Restinga

No período de 2015 a 2016 foi identificada supressão da vegetação de restinga em 9 dos 17 estados do bioma: Ceará (788 ha), Piauí (244 ha), Santa Catarina (199 ha), Bahia (64 ha), Sergipe (50 ha), São Paulo (32 ha), Rio de Janeiro (29 ha), Paraná (14 ha) e Rio Grande do Norte (6 ha).

Já o desmatamento em mangues aconteceu apenas na Bahia, em uma área de 68 ha.

Desmatamento zero

Em maio de 2015, 17 secretários de Meio Ambiente dos Estados da Mata Atlântica assinaram a carta “Nova História para a Mata Atlântica”, compromisso que prevê a ampliação da cobertura vegetal nativa e a busca do desmatamento ilegal zero no bioma até 2018.

Entretanto, após dois anos do acordo, esta edição do Atlas da Mata Atlântica aponta que apenas cinco estados estão no nível do desmatamento zero, ou seja, com menos de 100 hectares (1 Km2) de desflorestamentos, somadas áreas desmatadas em florestas, mangues e restingas: Rio Grande do Norte (6 ha), Alagoas (11 ha), Paraíba (32 ha), Pernambuco (16 ha) e, Rio de Janeiro (66 ha).

Não estão mais no nível de desmatamento zero Goiás, com 149 ha desmatados; Ceará, com 797 ha e São Paulo, com 730 ha. A boa notícia fica para Pernambuco, que voltou para a lista desse ano com a redução de 88% do desmatamento – passou de 136 ha entre 2014 e 2015 para 16 ha no último ano.

“Apesar do grande aumento do desmatamento em São Paulo, é importante destacar que 90% ocorreu por causas naturais, mais especificamente vendavais e tornados que atingiram os municípios de Jarinu, Atibaia, Mairinque, São Roque e Embu-Guaçu em 5 de junho do ano passado”, esclarece Flávio Jorge Ponzoni, pesquisador e coordenador técnico do estudo pelo INPE.

Confira o ranking completo dos estados:

Desflorestamentos entre 2015-2016, em hectares*

UF

Área UF

Lei Mata Atlântica

% Bioma

Mata 2016

% mata

Desmatamento 2015-2016

Desmatamento 2014-2015

Variação

BA

 56.473.404

 17.988.595

32%

 2.014.528

11,2%

 12.288

 3.997

207%

MG

 58.651.979

 27.622.623

47%

 2.836.004

10,3%

 7.410

 7.702

-4%

PR

 19.930.768

 19.637.895

99%

 2.283.731

11,6%

 3.453

 1.988

74%

PI

 25.157.775

 2.661.841

11%

 905.268

34,0%

 3.125

 2.926

7%

SC

 9.573.618

 9.573.618

100%

 2.204.983

23,0%

 846

 598

41%

SP

 24.822.624

 17.072.755

69%

 2.346.481

13,7%

 698

 45

1462%

ES

 4.609.503

 4.609.503

100%

 483.541

10,5%

 330

 153

116%

MS

 35.714.473

 6.386.441

18%

 706.841

11,1%

 265

 263

1%

RS

 26.876.641

 13.857.127

52%

 1.093.302

7,9%

 245

 160

53%

10º

SE

 2.191.508

 1.019.753

47%

 70.166

6,9%

 160

 363

-56%

11º

GO

 34.011.087

 1.190.184

3%

 30.386

2,6%

 149

 34

345%

12º

RJ

 4.377.783

 4.377.783

100%

 819.584

18,7%

 37

 27

37%

13º

PB

 5.646.963

 599.487

11%

 54.924

9,2%

 32

 11

206%

14º

PE

 9.815.022

 1.690.563

17%

 197.181

11,7%

 16

 136

-88%

15º

AL

 2.777.724

 1.524.618

55%

 143.433

9,4%

 11

 4

181%

16º

CE

 14.892.047

 866.120

6%

 64.065

7,4%

 9

 3

149%

17º

RN

 5.281.123

 350.994

7%

 12.219

3,5%

 -

 23

TOTAL

 29.075

 18.433

57,7%

 

*A tabela indica os desflorestamentos, em hectares, somente das florestas nativas (sem contar outras classes, como vegetação de mangue e restinga), observados no período 2015-2016, com comparativo e variação em relação ao período anterior (2014-2015).

Abaixo, total de desflorestamento na Mata Atlântica identificados pelo estudo em cada período (em hectares):

Desmatamento observado

Total desmatado

Intervalo (anos)

Taxa anual

Período de 2015 a 2016

29.075

1

29.075

Período de 2014 a 2015

18.433

1

18.433

Período de 2013 a 2014

18.267

1

18.267

Período de 2012 a 2013

23.948

1

23.948

Período de 2011 a 2012

21.977

1

21.977

Período de 2010 a 2011

14.090

1

14.090

Período de 2008 a 2010

30.366

2

15.183

Período de 2005 a 2008

102.938

3

34.313

Período de 2000 a 2005

174.828

5

34.966

Período de 1995 a 2000

445.952

5

89.190

Período de 1990 a 1995

500.317

5

100.063

Período de 1985 a 1990

536.480

5

107.296

Total 1985 a 2016

1.916.671

taxa desmatamento_site

Faça download de imagens dos mapas do monitoramento aqui.

Clique aqui para acessar o Relatório Técnico do Atlas  dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica – Período 2015/2016.


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Comentários

  • Ciro Couto

    Parabéns ao trabalho de monitoramento. Resultado não esperado. Lamentável.

  • Leonardo Menino

    Boa noite! A SOS Mata Atlântica irá disponibilizar os shapes da cobertura do solo? (Similares ao disponíveis dos fragmentos de mata de 2013-2014)

    • http://www.sosma.org.br/ Fundação SOS Mata Atlântica

      Vamos sim, Leonardo! Em breve disponibilizaremos no servidor de mapas, ok? Abraços

  • Fabio

    Respeito e gratidão por esse trabalho.

  • Nélio Jaider Lage

    Sou herdeiro de uma gleba de 56 ha no município de Santa Maria de Itabira-MG. Recentemente foram realizados georreferenciamento e Cadastro Ambiental Rural. Segundo informações do responsável pelo serviço, minha propriedade fica na faixa de transição entre cerrado e Mata Atlântica, sendo 41 ha remanescentes de vegetação nativa.

  • Gaspar

    Como tive experiência com desmatamento no centro-oeste na década de oitenta. E nos convertemos a proteção. Posso afirmar, que dispomos de mecanismos, ciência tecnologia e áreas desmatadas suficientes para aumentar a produtividade sem desmatar um hectare de mata nativa ou regenerada por no mínimo uma década. O porque desse aumento? A quem interessa? E porque quem está na defesa é atacado por todos os vieses? Fica a minha indignação! Vejamos o exemplo da Republica Dominicana?

  • Manoel Gobbi

    Obrigado a todos que direta ou indiretamente contribuíram com a realização do trabalho e a divulgação dos dados. Urge e é necessário maiores movimentos de conscientização e mobilização. Abraços !!! Continuidade, sucessos e prosperidade !!!

  • Solange Duarte

    Muito triste e cada dia mais decepcionada com o que acontece no Estado de SP, em especial na minha cidade, Guarulhos. É vergonhoso o resultado dos últimos anos, retrocesso total!

  • Maria Lucia Alonso Farrenberg

    Infelizmente os municípios, por razões diversas, não conseguem zelar pelas áreas com cobertura de mata atlântica. Gostaria de citar ,no estado de são Paulo, o município de São Sebastião, onde se verifica a ocupação dos ” pontões” da Serra do Mar, inclusive em áreas do Parque Estadual da Serra do Mar. Solicito informações para encaminhamento de denúncias. Parabens pelo trabalho.