Integração entre políticas de saneamento, clima e conservação se torna obrigação

23 de December de 2025

Aline Cruz e Gustavo Veronesi para a Folha de S. Paulo

A crise climática é também uma crise global da água. O novo relatório da Organização Meteorológica Mundial mostra que dois terços das bacias hidrográficas do planeta apresentam desequilíbrios hídricos em 2024. Secas históricas e enchentes devastadoras passaram a compor um cenário persistente de instabilidade, com impactos diretos sobre a produção de alimentos, a geração de energia e a vida de bilhões de pessoas.

Esse quadro inclui o Brasil, onde a matriz elétrica depende da água e os biomas já perderam grande parte da cobertura original. No coração da crise está a Mata Atlântica, onde ficam os rios que abastecem a maior parte da população e da economia do país.

O relatório Observando os Rios 2025 mostrou que mais de 75% dos pontos analisados no bioma seguem com qualidade apenas regular —águas poluídas que exigem tratamento para consumo humano e desenvolvimento de vida aquática. Casos ruins e péssimos aumentaram. No rio Tietê, a extensão da mancha de poluição caiu em2025, mas o número de trechos com água de boa qualidade também despencou: ao longo de 1.000 quilômetros, restam apenas 34 limpos. O problema não é só ambiental, mas de segurança hídrica, energética, econômica e alimentar.

Do Norte ao Sudeste, reservatórios em níveis críticos comprometem o abastecimento de milhões. 0 país ainda reage tardiamente aos sinais: seguimos desmatando, com saneamento precário e sem integração entre políticas de água, clima e uso do solo.

A ONU estima que 3,6 bilhões de pessoas já sofrem com acesso irregular à água. A crise ameaça mais de 50% da produção global de alimentos e pode reduzir em média 8% o PIB dos países até meados do século —15% nas nações mais pobres. No Brasil, um estudo da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico projeta que, até 2040, a disponibilidade hídrica pode cair em até 40% no Norte, Nordeste, Centro-Oeste e parte do Sudeste. É uma equação que combina vulnerabilidade climática e desigualdade social.

Tudo isso amplia a pressão sobre rios já por um triz. No Sul, enchentes devastaram vidas e cidades; na Amazônia, a seca extrema paralisou transportes e isolou comunidades. Mas é na Mata Atlântica, onde vivem mais de 70% dos brasileiros, que se decide o futuro da segurança hídrica do país. Tendo perdido mais de 80% da sua cobertura original, seus rios refletem esse colapso.

Diante desse quadro, a integração entre políticas de saneamento, clima e conservação deixa de ser escolha e se torna obrigação. É preciso rever as regras de qualidade da água, torná-las mais exigentes e conectadas à recuperação dos rios, ampliar a atuação dos comitês de bacias hidrográficas e apostar em soluções baseadas na natureza. Cada hectare restaurado é um investimento em resiliência hídrica e climática.

A resposta não pode ser apenas emergencial, como bandeiras tarifárias ou obras de transposição. O caminho é estrutural: investir em saneamento, despoluir rios degradados, proteger e recuperar florestas. Afinal, a água não é apenas um recurso, é a fronteira entre o colapso e a sobrevivência.

É preciso rever as regras de qualidade da água, torná-las mais exigentes e conectadas à recuperação dos rios, ampliar a atuação dos comitês de bacias hidrográficas e apostar em soluções baseadas na natureza.

Foto de capa: Sistema Cantareira em seca histórica. Mídia Ninja.

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