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Por que desmatar 79% da área de mananciais secou São Paulo
10/10/2014


Artigo de Marcia Hirota*, originalmente publicado no Blog do Planeta – Estudo da Fundação SOS Mata Atlântica divulgado com exclusividade pela revista Época  constatou que a cobertura florestal nativa na bacia hidrográfica e nos mananciais que compõem o Sistema Cantareira, centro da crise no abastecimento de água que assola São Paulo, está pior do que se imaginava. Hoje, restam apenas 488 km2 (21,5%) de vegetação nativa na bacia hidrográfica e nos 2.270 km2 do conjunto de seis represas que formam o Sistema Cantareira.

O levantamento avaliou também os 5.082 km de rios que formam o sistema. Desse total, apenas 23,5% (1.196 km) contam com vegetação nativa em área superior a um hectare em seu entorno. Outros 76,5% (3.886 km) estão sem matas ciliares, em áreas alteradas, ocupadas por pastagens, agricultura e  silvicultura, entre outros usos.

O estudo teve como base o último Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, que avaliou a situação da vegetação nos 17 Estados com ocorrência do bioma, no período 2012-2013. O Atlas, que monitora o bioma há 28 anos, é uma iniciativa da Fundação SOS Mata Atlântica e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), com patrocínio de Bradesco Cartões e execução técnica da Arcplan.

Com base em imagens de satélite, o Atlas da Mata Atlântica utiliza a tecnologia de sensoriamento remoto e geoprocessamento para monitorar os remanescentes florestais acima de 3 hectares. Neste estudo sobre o Sistema Cantareira, realizado pela SOS Mata Atlântica e Arcplan, foram identificadas as áreas de até 1 hectare.

As análises foram avaliadas em nível municipal, indicando os municípios com total de áreas naturais mais preservados. As cidades observadas foram: Camanducaia (19,6% de vegetação nativa), Extrema (15,2%), Itapeva (7,9%) e Sapucaí Mirim (42%), em Minas Gerais; Bragança Paulista (3,2%), Caieiras (50,2%), Franco da Rocha (40,8%), Joanópolis (18,8%), Mairiporã (36,6%), Nazaré Paulista (24,7%), Piracaia (17,7%) e Vargem (17,9%), em São Paulo.

As florestas naturais protegem as nascentes e todo fluxo hídrico. Com esses índices de vegetação, não é de se estranhar que o Sistema Cantareira opere, atualmente, com o menor nível histórico de seus reservatórios, já que para ter água é preciso ter também florestas

E o que fazer diante deste quadro?

O primeiro desafio é proteger o que resta de Mata Atlântica e manter, com rigor, o monitoramento e a fiscalização dessas áreas para evitar a ocorrência de novos desmatamentos.

Importante lembrar que Minas Gerais, Estado que reúne não apenas as nascentes de rios que formam o Sistema Cantareira, mas também das bacias dos rios Doce, São Francisco e Paraíba do Sul, entre outros, é o recordista do desmatamento da Mata Atlântica pelo quinto ano consecutivo, de acordo com os últimos dados do Atlas da Mata Atlântica.

O segundo ponto é promover a recuperação florestal nessas regiões, incluindo-se aqui investimentos públicos e privados para restauração florestal e programas de Pagamentos Por Serviços Ambientais (PSA) voltados aos proprietários de terras, municípios e Unidades de Conservação que as preservarem.

Com o objetivo de estimular esse esforço, a Fundação SOS Mata Atlântica lançará ainda neste mês um novo edital do programa Clickarvore, com apoio do Bradesco Cartões e Bradesco Capitalização, para a doação de 1 milhão de mudas de espécies nativas para restauração na Bacia do Cantareira. Essas mudas possibilitarão a recuperação de até 400 hectares de áreas, que por sua vez podem promover a conservação de 4 milhões de litros de água por ano. A ideia é que os projetos selecionados colaborem para conservar e proteger os recursos hídricos conectando, nessas regiões, os poucos fragmentos de mata que hoje encontram-se isolados.

Pode parecer pouco, tendo em vista o tamanho do desafio, mas é um primeiro passo para trazer de volta as florestas e a água ao Sistema Cantareira. Esperamos que essa iniciativa contribua para o fortalecimento de políticas públicas efetivas e que possa marcar o início de esforços conjuntos da sociedade, iniciativa privada e do poder público para a recuperação desse importante manancial. Afinal, a grave escassez que enfrentamos neste ano reforça a necessidade do Estado promover a proteção dos mananciais e a gestão integrada e compartilhada da água.

A restauração da cobertura florestal nas áreas de mananciais é o pontapé para a recuperação das reservas de água. No entanto, para que traga resultados efetivos, essa iniciativa  precisa ser somada a uma ação urgente e firme do Governo do Estado no sentido de implementar efetivamente instrumentos econômicos como o PSA e a cobrança pelo uso da água a todos os usuários, o que garantirá a sustentabilidade do sistema e o acesso à agua em quantidade e qualidade para a sociedade.

 

*Marcia Hirota é diretora-executiva da Fundação SOS Mata Atlântica.

 


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Comentários

  • Will Aflagal

    Infelizmente a mentalidade da preservação toma o ser humano apenas quando as coisas estão no fim, quando em abundancia o pensamento é de que serão para sempre.

  • Bonfim0Alex

    Também aqui na região de São Roque, a oeste da capital paulista, a situação é precária em termos de desmatamento, ainda que a represa de Itupararanga viva uma situação menos crítica que outras represas do estado.

  • Carlos Monteiro

    Face a urgência e a necessidade, a única solução para recuperar todas as nascentes no Brasil seria a intervenção do Governo Federal sobre estas áreas.

    Preparar um Programa Emergencial de Recuperação de Nascentes, obrigatório ao proprietário rural. Não seria difícil, pois todas as nascentes são de uma maneira ou outra cadastradas. Este Programa teria gestão Municipal e as Secretarias Municipais de Meio Ambiente seriam equipadas com material humano, capacitação e recursos para intervir, demarcar, cercar, plantar, vigiar e fiscalizar e se necessário com a ajuda da Polícia Florestal ou Federal.

    Não adianta ficar pedindo aos proprietários rurais que façam replantio ou que deixem de desmatar…é impossível em estado de EMERGÊNCIA…a maioria não quer saber de proteção ou se na cidade está faltando água….agora receber por serviço ambiental todos querem, especialmente se for do tipo BOLSA ALGUMA COISA…

  • Marta

    Otima iniciativa quanto a atualizacao de informacoes sobre esta crise das aguas, que e na verdade, falta de investiimento do Poder publico.

  • Adeilton Resende Ilto Rodrigo

    Cientista ja procura vida em outro planeta…

  • Guilherme Antonio Dadalt

    Engraçado que todos que estão no governo de São Paulo sabem a importância das matas ciliares no ciclo da água, mas só tomam atitude de recuperar essas áreas quando chega a esse ponto. A ideia de preservar é essa, preservar enquanto existe para um dia não faltar, mas esperam a situação chegar ao extremo e assim estão fazendo não só com SP, mas com todo o Brasil, é triste… preocupante!

  • Cid Alves

    A ordem deveria vir de cima. “DESMATAMENTO ZERO”. A Amazônia está sendo devastada também. Derrubam milhares de arvores todos os dias e o governo não toma uma atitude enérgica! Só pensam em dinheiro e mais nada! DESMATAMENTO ZERO E REFLORESTAMENTO! Fácil de resolver. É só querer!

  • Luciana Rocha

    Sério que vocês estão finalmente falando sobre devastação da Serra da Cantareira sem dizer uma palavra sobre o ROUBANEL que o desgovernador Geraldo Alckmin está construindo e que vai determinar a extinção da floresta??? Mas é claro que essa SOS Mata Atlântica não é nem um pouco séria!!!

    • Cesar Augusto Othero Tiossi

      E o desmatamento que as esquerdas promovam apoiando novas favelas em mananciais? Será que as favelas que destroem a Serra do Mar em Cubatão, em Guarulhos e em todo o entorno de Sampa, apoiados pelo empreiteiro Boulos, não são desmatamento?

  • orlando – abppp

    Através de uma PPP com as prefeituras o SOS pode prestar e receber pelo serviços recompor as matas ciliares.

  • Cesar Augusto Othero Tiossi

    Sério que estão falando em desmatamento sem falar das favelas que foram criadas na Cantareira? Será que favelas, por um fator divino, não devem ser consideradas desmatamento? Será que o que o Malddad faz na nova Palestina também não acaba com a Guarapiranga?

  • Katia

    Ainda pode ser revertido esse quadro?

    • http://www.sosma.org.br/ Fundação SOS Mata Atlântica

      Sim, Katia, e uma das formas é através de políticas públicas e outras ações que busquem a restauração da Mata Atlântica na região. Por exemplo, neste momento estamos com um edital aberto para pessoas que possuem propriedades na região possam ter apoio para reflorestas estas áreas. A ideia é doar até 1 milhão de mudas de espécies florestais nativas da Mata Atlântica, pra reflorestas até 400 hectares de mata, promovendo assim a conservação de 4 milhões de litros de água por ano na área de abrangência do Sistema Cantareira. Saiba mais: http://www.sosma.org.br/101340/prorrogado-edital-1-milhao-de-mudas-cantareira/

  • Gustavo Bueno

    A lógica do sistema é o lucro e seus seguidores não conseguem entender que nossos recursos naturais estão chegando a um limite irreversível. Ou mudamos nossa mentalidade colocando o ser humano acima do capital ou vamos agonizar até o fim…

  • Frank Pimenta

    Aqui em Cabo Frio, grileiro estão queimando a reserva do Mico leão Dourado e da Preguiça e ninguém toma providências. Estão cercando com arame a vegetação e demarcando as terras. Segundo distrito de Cabo Frio – Rua das Pacas. Tamoios.

  • PAULO

    O povo só pensa na natureza quando vem a chuva forte,alagamentos,ciclone,calor, etc,etc.Fora isso ninguém se interessa em plantar uma árvore em frente a casa dele.Se todos plantassem uma árvore com certeza, teríamos um mundo melhor.

  • shirley faetthe

    Em 1998 quando ingressei com ações civis públicas para a recuperação da reserva permanente e reserva legal no Estado do Paraná, representando a ANDEAM, tive sérios problemas com os produtores rurais,promotores públicos contrários, falavam em corredores naturais, uma série de abordagens inclusive favorecendo a política da não necessidade. Na época o meu trabalho pegou todo o vale do Ivaí. No final praticamente fiquei sozinha, até os representantes da associação desistiram por conta de ameaças. Hoje vejamos, temos o problema em SÃO PAULO em breve teremos no Sul e sucessivamente.Parte do meu trabalho gerou resultado, mais efetivamente, ficaram muitos para trás. Agora o Ministério Público vem fazendo os termos de ajustes de condutas.