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Floresta Nacional de Ipanema: onde a história do Brasil e a conservação ambiental se encontram
23/01/2019


Visitar a Floresta Nacional (Flona) de Ipanema, que abrange parte dos municípios de Iperó, Araçoiaba da Serra e Capela do Alto, no interior Altode São Paulo, significa conhecer um pouco mais da história do Brasil. Não só pelo fato de que nesta Unidade de Conservação (UC) estão os embriões da siderurgia nacional, mas também por ter nascido na região, Francisco Adolfo de Varnhagen – visconde de Porto Seguro – autor do primeiro livro sobre história do Brasil. No topo do Morro de Araçoiaba, um monumento com mais de 700 metros de altitude homenageia o pai da história do Brasil – como ele ficou conhecido – o que faz do local um dos pontos mais visitados da região e que pode ser encontrado após uma belíssima trilha na Mata Atlântica conservada por esta área protegida.

WhatsApp Image 2019-01-18 at 10.00.23 Foi este vasto cenário, além de outras características que vamos contar aqui, o destino da primeira expedição da Fundação SOS Mata Atlântica em 2019. Com toda sua equipe – áreas administrativo-financeira, comunicação,  projetos e diretoria –, a ONG conheceu a Flona nos dias 18 e 19 de janeiro. Criada em 1992, a Floresta Nacional de Ipanema tem mais de 5 mil hectares e é gerida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão responsável pelas UCs federais brasileiras.

“Foi a minha primeira participação em expedição da SOS Mata Atlântica. E foi maravilhoso. Tenho contato   diariamente com alguns projetos que apoiamos, mas é para falar de prestação de contas, extratos bancários e   investimentos. Poder conhecer pessoalmente o projeto, você vê um dedinho seu ali. E isso dá um gás para cada atividade no financeiro. Ver o projeto caminhar, de certa forma, é um reconhecimento”, finalizou Patrícia Galluzzi, analista financeira de projetos da Fundação SOS Mata Atlântica.

A Flona é um verdadeiro laboratório a céu aberto. Isso porque abriga a Academia Nacional de Biodiversidade (Acadebio), criada em 2009, paraAcadebio oferecer cursos de formação e capacitação, como simulações de atividades de campo, a servidores do ICMBio. Até hoje, mais de 540 eventos foram realizados na academia com a presença de mais de 240 mil pessoas.

Para Alexandre Cordeiro, analista ambiental do ICMBio, a Acadebio fez da autarquia a referência que é hoje em gestão de áreas protegidas. “Hoje conhecemos nosso negócio, sabemos como fazer nosso trabalho e compartilhamos este conhecimento com colegas de outras áreas e até mesmo de outros países“, afirmou ele.

Além disso, a Flona de Ipanema tem como objetivo proteger, conservar e restaurar o Morro Araçoiaba e seus ambientes associados, os remanescentes de Mata Atlântica, Cerrado e seus atributos naturais, históricos e culturais.

Isis-FreitasPrivilégio, honra e prazer foram as palavras mais faladas pelos servidores do ICMBio que acompanharam a expedição. “A SOS Mata Atlântica é uma grande parceira nossa. E recebê-los aqui é motivo de orgulho para nós“, afirmou Isis Freitas, chefe substituta da Acadebio.

Localizada a apenas 120 km capital paulista, a Flona de Ipanema possui rica biodiversidade. Sua fauna equivale a 20%Paineira da riqueza do estado de São Paulo, com ocorrência de aves, mamíferos e répteis. Sua flora abriga espécies, como Perobas, jequitibas, paineiras e figueiras seculares, além de plantas medicinais, como aroeira mansa, assa-peixe, embaúba, jatobá, entre outras. Ao todo, são 343 espécies de aves, 27 espécies de répteis, 36 espécies de anfíbios, 37 espécies de peixes e 69 espécies de mamíferos, com destaques para o lobo-guará, a jaguatirica, a lontra, cachorro-do-mato, irara, tamanduá-bandeira, urubu-rei, entre outros.

“Foi uma alegria realizar esta expedição. Desfrutamos juntos da natureza e conhecemos de perto tantas iniciativas e desafios importantes“, afirmou Erika Guimarães, gerente de Áreas Protegidas da Fundação SOS Mata Atlântica.

Saiba mais sobre a Flona de Ipanema, como chegar e os atrativos desta área protegida

RuinasHistória e meio ambiente

Ao citar os desafios, Erika, fez lembrar do histórico desta região e as diversas características de uso do Monumentolocal, que sofreu modificações ao longo dos anos, inclusive redução de sua cobertura vegetal.

Tudo começou quando os exploradores do século XVI descobriram que a Mata Atlântica poderia oferecer muito do que precisavam, como água, madeira e a magnetita, o minério para fabricação de ferro. Foi aí que a exploração começou. Em 1589, Afonso Sardinha e seu filho construíram duas forjas reconhecidas pela Associação Mundial de Produtores de Aço como a primeira tentativa de fabricação de ferro em solo americano. Anos mais tarde, em 1810, Dom João VI criou a Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema, que produzia tudo que o Brasil precisava para crescer.

Após a desativação da fábrica, em 1895, a área conhecida como Fazenda de Ipanema passou a ser propriedade do Ministério do Exército e se tornou quartel e depósito. Anos mais tarde, lá ainda foram explorados a apatita e o calcário para produção de cimento. Depois, em 1937, foi transferida ao Ministério da Agricultura onde o Centro de Ensaios e Treinamento de Ipanema (CETI/CENTRI) iniciou os estudos com sementes e equipamentos agrícolas. Na região, inclusive, foram feitos os testes do primeiro avião agrícola brasileiro, chamado assim de Ipanema.

Atualmente, o Sítio Histórico é composto por diversos prédios, com destaque para a Casa das Armas Brancas, Altos Fornos Varnhagen e Mursa. Ruinas-2É claro que, para a construção de todos estes empreendimentos, foi necessário muito açoite, informação que os brasileiros não podem esquecer, uma vez que os negros tiveram papel fundamental na construção do Brasil, infelizmente como escravos da época.

Por todos estes locais que a equipe da Fundação SOS Mata Atlântica passou qualquer pessoa pode visitar. A Flona de Ipanema possui um Centro de Visitantes, onde se é possível obter informações sobre quais atividades fazer e até contar com apoio de guias da Associação de Monitores Tupiniquins, moradores da região com as mais diversas informações sobre a história da região. Entre as atividades que podem ser realizadas na Flona estão caminhadas, ciclismo, corrida, entre outras.

CaminhadaPara Ofélia de Fátima Gil Willmersdorf, analista ambiental do ICMBio, que atua na região da Flona há mais de 25 anos, sua experiência pode comprovar como o uso público é outra atividade que a autarquia foi aprimorando ao longo do tempo. “É importante entender que o homem faz parte da natureza e, por isso, precisa estar próximo dela. Por isso, o ICMBio passou a propor este tipo de ação em áreas protegidas“, afirmou ela. Somente em 2018, mais de 50 mil pessoas visitaram a Flona de Ipanema.

Outra atividade que em breve poderá ser feita na Flona é a escalada, outro motivo da visita da Fundação SOS Mata Morro-AracoiabaAtlântica ao local. A ONG apoia o “Programa de abertura de escalada em rocha na Floresta Nacional de Ipanema, e monitoramento do Urubu-Rei (Sarcoramphus papa) nos setores de escalada“, a partir do edital de incentivo ao uso público em UCs, em parceria com a Repsol Sinopec Brasil.

VistaNa ocasião, Pietro de Oliveira Scarascia, coordenador do programa, atualizou a equipe sobre as atividades da iniciativa, que já existia há alguns anos, mas precisava de apoio para avançar. O recurso da SOS Mata Atlântica deu novos rumos ao projeto. Agora, já foram instaladas cinco áreas onde será permitido praticar a escalada. Algumas de fácil acesso, passando por pequenas trilhas de 300 metros. O projeto ainda fez sinalizações para chegada nas áreas e ainda promoverá um curso de escalada e apoio ao plano de uso público da Flona de Ipanema.

“Quando esta área for aberta para escalada será uma grande revolução no esporte. Este será o local mais próximo da capital paulista para escalada. Vai ser um dos lugares mais procurados por quem pratica este esporte, que já é olímpico e deve receber cada vez mais praticantes nos próximos anos“, vislumbra Scarascia.

O projeto de escalada em rocha ainda tem um componente ambiental importante, o respeito aos ninhais de Urubu-rei, devidamente identificados no Morro de Araçoiaba, onde não será permitido a escalada. A  região é viável para o esporte por suas características geológicas, o que faz da Flona de Ipanema um ponto também diferente para quem tem interesse na ciência.

Inicio-da-trilhaTrilha Pedra Santa

Entre os guias da Associações de Monitores Tupiniquins estava Rafael Gonçalves, que acompanhou um dos grupos da Fundação na Trilha Pedra Santa. Com 6 km de extensão, nessa atividade é possível conhecer a história do Monge Giovani D’Agostini, que viveu anos em uma gruta da região para tratar dos trabalhadores da então Real Fábrica, muitas vezes esquecidos pelos patrões da época.

Além da gruta onde o monge vivia, também é possível conhecer a Cruz de Ferro da Pedra Branca, localizada um pouco abaixo de onde está o Monumento a Varnhagen – citado acima – onde também fica uma paineira branca, símbolo da Flona de Ipanema. A cruz de ferro é um marco das primeiras fabricações da Real Fábrica. Além dela, outra também foi instalada na então Fazenda Ipanema. Uma terceira está no Museu Histórico de Sorocaba.Monitores-Tupiniquins

Boa parte dessas histórias foram contadas por Rafael Gonçalves, que além de monitor também faz parte da brigada de incêndio da Flona, que já não tem incêndios há mais de 12 anos. “Para mim a Flona de Ipanema é sinônimo de vida. Eu faço parte da quarta geração da minha família que vive na região. Meu sustento vem da Flona, do trabalho que realizo como monitor dos turistas“, afirmou Rafael Gonçalves.

As pessoas da Flona de Ipanema

Além da história e da conservação ambiental viverem lado a lado na Flona, outro ponto que marca o sucesso da gestão da área protegida, é a relação com o entorno desta Unidade de Conservação (UC). Em diversas partes do Brasil, as áreas protegidas sofrem extrema pressão externa e sua Zona de Amortecimento – área limite das UCs que evitam pressão do homem sobre as unidades – mas na Flona algumas questões que podem parecer conflito, acabaram se tornando aliadas.

“Aqui temos alguns assentamentos que funcionam como aliados da conservação. Recentemente recebi uma ligação de um dos moradores, alertando sobre um possível foco de incêndio na Flona. Eu já fui imediatamente ao local para evitar que aquilo se tornasse um incêndio de grandes proporções“, destacou Gonçalves.

JonaspOutras pessoas auxiliam em diversas atividades na área, inclusive ações de educação ambiental com as crianças da região. Entre elas, Jonas Popst, voluntário, que há mais de 35 anos atua como viveirista e tem no aprendizado seu grande aliado para o sucesso do trabalho.

“Viveirista não para de aprender. Está no sangue. Se a gente parar de aprender, não faz mais o trabalho certo“, afirma ele.

Saiba mais sobre o trabalho da Fundação SOS Mata Atlântica pela Valorização dos Parques e Reservas, uma das causas prioritárias para a organização.


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