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Ornitólogo mirim é atração em Festival de Aves de Paraty
10/09/2013


O Festival de Aves de Paraty, que aconteceu de 6 a 8 de setembro, teve como ponto alto a palestra de um ornitólogo mirim. João Couto, de 11 anos, surpreendeu e encantou a todos com suas histórias e a paixão pelos pássaros. Filho de Hélio de La Peña, parece ter herdado os “genes do humor” também, com diversas tiradas engraçadas durante sua apresentação.

A primeira foto de ave ele fez aos 7 anos, e por conta do hobby de observação de aves tem muitos amigos com mais de 60 anos. Virou mascote de um grupo de observação do Rio! No Rio, costuma ir à Floresta da Tijuca e ao Jardim Botânico para ver e registrar as aves, e em Paraíba do Sul explora a fazenda dos avós.

Também opina sobre as férias da família e até sobre os hotéis, pensando em destinos que facilitem a observação – e convence os pais depois a realizá-los! Quando os pais não podem viajar com ele, apela para os avós, com quem foi ao Pantanal. Já esteve na Amazônia e em Galápagos, e no Brasil cita ter observado aves no Itamambuca Ecoresort, em Ubatuba (SP), e na Pousada Paraíso, em Petrópolis (RJ).

Na fazenda dos avós ele passou a contabilizar os pássaros avistados. Primeiro chegou a uma lista de 80 aves, depois passou a 126. Aí, convidaram um amigo ornitólogo, Fernando Pacheco, para verificar. Eis que o ornitólogo adulto encontrou mais aves ainda e chegou a um número de 215.

“O Pacheco é muito bom, eu tinha visto uma espécie enquanto ele já tinha anotado uns 45 pássaros”, conta João. Ressaltando que ele marcava não apenas o que via, mas também as espécies que ouvia.

O pai Hélio de La Peña ressalta a paciência que se tem de ter ao tentar observar e fotografar aves. “Às vezes saíamos 6h de casa, ficávamos até meio dia no Parque da Tijuca e ele fotografava umas quatro aves, com uma paciência que não é comum para uma criança. Achava que o passeio não tinha valido nada, mas quando ele chegava em casa contava para a mãe que tinha valido muito e estava feliz!”

Ele contou também ter aprendido muito com o filho sobre biodiversidade. “Achava que numa cidade grande como o Rio não tinha quase nada. Se você não tem o hábito, você passa pelo local e não enxerga nada. Mas o João observava muita coisa da janela de casa e me mostrava diversas espécies. Ele me falava que tinha coruja perto de onde morávamos, achei que estava mentindo, mas depois ficamos ouvindo a coruja”, lembra o pai.

Para os avós, é muito especial ver o neto levar os amigos para a fazenda, acordar às 5h para ver as aves, em vez de ficar o dia inteiro em frente a TV ou videogame, como muitos garotos de sua idade. Uma ave que João destaca entre as muitas que observou até hoje é o chororó-cinzento, espécie considerada “quase ameaçada” pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza).  “É raro, mas fácil de distinguir por causa do som, parece um sapo”, conta o ornitólogo. Ao que o pai complementa: “É um pássaro feio, não vale a viagem”, e todos riem.

E como João faz para convencer os amigos que observar aves é bacana? “Fico falando do falcão-peregrino, que é o pássaro mais rápido do mundo. Eu conto que ele é mais rápido que um carro de Fórmula 1. Se eles não caem, eu falo que uma foto de um tietê-de-coroa, um pássaro bem pequenininho, vale R$ 40 mil!”, diz. Espertamente, ele deixa detalhes como o fato de que o pássaro não é visto há cerca de 50 anos fora da conversa.
Com as amigas meninas, porém, não comenta sobre o assunto, por achar que elas não curtem o tema.

foto3

A seguir, algumas das perguntas que o público, que lotou o auditório do festival, fez ao João:

Você já percebeu que os passarinhos também observam a gente? Você já viu passarinho te observando no mato, já teve essa sensação?

Já tive essa sensação sim. Um exemplo é o bem-te-vi, quando me vê fala “bem-te-vi”.

Acha que nas escolas da nossa região na Mata Atlântica deveriam ter as aves como objeto de estudo? Acha que seria interessante?

Acho que seria. Essa pergunta me lembrou uma coisa, uma vez meu primo estava estudando pássaros e ele comentou na aula que eu gostava de pássaros. Aí acabei indo lá e dei uma palestra para os garotinhos de uns 4 anos de idade, mostrei as fotos, expliquei e acho que eles gostaram bastante.

Você tem um grupo de aves que gosta mais?

Gosto bastante das chocas e dos gaviões. Acho muito bonito ver um gavião voando.

Qual é seu grande sonho nessa área?

Eu sempre quis ver um tietê-de-coroa ou soldadinho de Araripe, esses pássaros raros.

Qual foi o pássaro mais raro que você viu na fazenda (dos seus avós)?

Papagaio-de-peito-roxo e a águia-cinzenta, que eu confundi primeiro com uma harpia, mas depois descobri que era mesmo águia-cinzenta.

O que você acha das pessoas que caçam ou matam passarinhos?

A caça eu acho muito ruim, porque é contra a lei e é uma grande maldade com os pássaros (…). E os que matam pássaros de propósito são muito piores do que os que colocam em gaiola, porque na gaiola ele ainda pode ter uma chance, mas se matou, a não ser que seja um grande religioso, não terá mais chance não.

Quantas espécies você tem registrado no wikiaves?

Eu sei que fotos são 300.

foto2

Dicas do João para quem está começando a fazer observação de aves:

- Compre um guia

- Anote as espécies vistas

- Registre as espécies com uma câmera

- Anote quando e onde viu

 - Procure perto de casa ou em praças próximas

- Use sites como Wikiaves ou Xeno-canto

- Use binóculos

 Afra Balazina,

Diretora de Comunicação da Fundação SOS Mata Atlântica


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Comentários

  • Rosemarí Júlio

    Gostei muito de tomar conhecimento sobre o que o João pode e vai ensinar para as crianças não só da sua idade, como para os mais novos ou com mais idade. E pode crer João, as meninas têm interesse sim, tenho duas netas, uma de 8 anos, outra de 13 anos, que adoram fotografar com a vovó e com meu neto Gabriel de 11anos como vc, isto me deixa orgulhosa por ser uma apaixonada pela natureza e pelas aves. Parabéns João, por seu belo trabalho. Quem sabe um dia vc ainda irá guiar-me pela Tijuca. Abraços.