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Um tesouro protegido no Sul do Brasil
14/08/2018


Diego Igawa, biólogo da Fundação SOS Mata Atlântica e analista de Áreas Protegidas, fala sobre sua visita ao projeto apoiado pela ONG no litoral de Araranguá, em Santa Catarina

Campo de dunas com o rio Araranguá e o mar ao fundo.  Foto: Diego Igawa Martinez

Campo de dunas com o rio Araranguá e o mar ao fundo.
Foto: Diego Igawa Martinez

Após o IX Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação (IX CBUC), sediado em Florianópolis, em que reafirmamos nossa atuação pela valorização dos parques e reservas da Mata Atlântica e pela proteção do mar, esticamos nossa viagem ao sul para visitar o projeto “Unidades de Conservação da Costa de Araranguá – difundindo a natureza local com o Roteiro Geoecológico“. A iniciativa é realizada pela empresa Geoambiental Brasil e parceiros e foi contemplada com recursos do nosso edital em parceria com a Repsol Sinopec Brasil para valorizar Unidades de Conservação (UCs) públicas e privadas da Mata Atlântica e em ambientes marinhos.

Veja como foi a participação da ONG no IX CBUC

Vista do morro dos conventos. Foto: Diego Igawa Martinez

Vista do morro dos conventos.
Foto: Diego Igawa Martinez

O município de Araranguá localiza-se no litoral sul do estado de Santa Catarina. Equidistante da capital Florianópolis (220 km) e de Porto Alegre (240 km), no Rio Grande do Sul, a costa de Araranguá guarda um grande patrimônio natural e paisagens belíssimas ainda pouco conhecidas. Fazer com que essas áreas sejam mais valorizadas e apropriadas pela população é um dos objetivos do projeto que apoiamos por lá.Imagine um lugar com um mosaico de diferentes formações – como campos de dunas, vegetação de restinga herbácea e restinga arbórea próximas ao mar e sobre a areia, áreas  alagadas e marismas (que substituem os manguezais nos climas mais frios) e outros fragmentos de Mata Atlântica – que contribuem para a conservação dos mais de dois mil hectares de remanescentes do bioma nesta cidade catarinense. Somados a isso, as lagoas costeiras, o rio Araranguá e o morro dos Conventos formam um cenário com enorme potencial educativo, científico e turístico.

Área alagada entre as dunas e o Morro dos Conventos.  Foto: Diego Igawa Martinez

Área alagada entre as dunas e o Morro dos Conventos.
Foto: Diego Igawa Martinez

A luta pela conservação deste paraíso

Há mais de uma década, estudos de várias instituições e a mobilização da sociedade civil local defendem a proteção desses ambientes para o desenvolvimento sustentável da região. Ações como a inclusão do Morro dos Conventos na proposta de Geoparque Caminhos dos Cânions do Sul, pelo Serviço Geológico Brasileiro, e a defesa de um Santuário Ecológico por entidades locais são exemplos desses esforços.Mais recentemente, Araranguá vem empreendendo ações para a consolidação de seu Plano de Gestão Integrada da Orla. Esse fato merece destaque, pois desde o Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro (Lei n. 7661 de 1988) já se previa que os municípios deveriam implementar seus planos de gestão da orla, porém, ainda hoje são poucos aqueles que efetivamente realizaram esse planejamento seguindo as diretrizes do Projeto Orla – iniciativa que sugere ações para o ordenamento dos espaços litorâneos.

Unidades de Conservação de Araranguá criadas por demanda do projeto Orla.  Fonte: Plano de Gestão Integrada da Orla de Araranguá

Unidades de Conservação de Araranguá criadas por demanda do projeto Orla.
Fonte: Plano de Gestão Integrada da Orla de Araranguá

Além da concentração de várias feições costeiras exuberantes e a mobilização para gestão da orla, o município de Araranguá deve ser ressaltado por um terceiro ponto: a criação de três Unidades de Conservação (UCs) por Decretos Municipais no ano de 2016, atendendo solicitações da sociedade que foram apontadas no Projeto Orla.

Esse é um caso muito interessante e um exemplo de integração entre instrumentos de diferentes políticas para gestão costeira, conservação e uso sustentável do patrimônio. Sociedade civil e poder público trabalharam para a criação do Monumento Natural do Morro dos Conventos, da Área de Proteção Ambiental da Costa de Araranguá e da Reserva Extrativista do Rio Araranguá. O papel dos municípios na proteção dos remanescentes da Mata Atlântica e da zona costeira por meio da criação e gestão de UCs municipais tem sido cada vez mais evidenciado e ações na esfera dos governos locais mostram-se de grande importância para aumentar a efetividade das áreas protegidas no país.

Leia o estudo da SOS Mata Atlântica sobre UCs municipais

Conheça as causas Valorização de Parques e Reservas e Proteção do Mar da SOS Mata Atlântica

Estudantes de Pós-Graduação em Geociências da UFRGS em atividade de campo com o Roteiro Geoecológico. Fonte: Página do Roteiro Geoecológico no Facebook

Estudantes de Pós-Graduação em Geociências da UFRGS em atividade de campo com o Roteiro Geoecológico.
Fonte: Página do Roteiro Geoecológico no Facebook

Também como demanda do Projeto Orla no município, foi idealizado e executado em 2017 o projeto Roteiro Geoecológico, uma iniciativa do  Grupo de Estudos Geoecológicos e Socioambientais com apoio da ONG Sócios da Natureza, com o objetivo de fortalecer o potencial turístico da região e a educação interdisciplinar na natureza, indo além dos muros das escolas e universidades. Com o roteiro, os interessados obtêm informações e interpretam o ambiente natural enquanto visitam o local.

Porém, o roteiro ainda não é tão utilizado quanto poderia e as UCs do município ainda são pouco conhecidas. Por isso, o projeto que apoiamos na região pretende fazer com que a população se aproprie das suas UCs e do Roteiro Geoecológico – nosso apoio ao projeto também contribuirá para a atualização do conteúdo das placas informativas feitas de forma participativa.

Samanta Cristiano, professor Jairo Cesar e Diego Igawa no mirante na rampa de voo livre do Morro dos Conventos.  Foto: Samanta Cristiano

Samanta Cristiano, professor Jairo Cesar e Diego Igawa no mirante na rampa de voo livre do Morro dos Conventos.
Foto: Samanta Cristiano

Leia notícia sobre o edital de apoio a UCs

Os responsáveis pelo projeto são o geógrafo e mestre em Ciência Ambiental Pedro Nasser, que também foi consultor do Projeto Orla de Araranguá, e a bióloga e doutora em Geologia Marinha Samanta Cristiano, que foi nossa anfitriã e possui uma história marcante na região. Com família em Araranguá, ela mantém vivo o vínculo com a região que frequenta desde a infância, mesmo tendo saído da cidade para estudar e trabalhar. Com 29 anos, é uma das poucas mulheres integrantes do Comitê Gestor da Orla e persiste na luta pela conservação de sua cidade.

Ao final da visita, ainda fomos presenteados com o avistamento de Baleias-Francas, que frequentam o litoral de SC nessa época, a partir do mirante no Morro dos Conventos. Com tudo isso, voltamos com a certeza de que este projeto ainda terá muitas outras histórias interessantes para serem contadas e que é fundamental o brasileiro conhecer um pouco mais as belezas do nosso país.

Conheça mais sobre o Roteiro Geoecológico curtindo a página no Facebook e seguindo o perfil no Instagram.


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