COP27: Brasil negativo em carbono

COP27: Brasil negativo em carbono

Evento paralelo mostra como o país pode ser a primeira grande economia "carbono negativa" do mundo

16 de novembro de 2022

Afra Balazina, de Sharm El-Sheik*

Em evento na 27ª Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas COP-27, em Sharm El-Sheikh, no Egito, representantes de diferentes organizações ligadas ao Observatório do Clima (OC) reforçaram que, apesar da alta nas emissões de gases-estufa do país e dos retrocessos da atual gestão federal, o Brasil tem condições de cumprir suas metas e compromissos climáticos e se tornar negativo em carbono até 2050.

Para isso, deve conter o desmatamento das florestas, restaurar as matas, cuidar das áreas devolutas e protegidas, cortar o uso de energias fósseis e priorizar as limpas.

Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório, ressaltou que os últimos quatro anos foram muito difíceis para quem trabalha com clima e meio ambiente, educação, direitos humanos e saúde. “Esse grupo de 77 organizações resistiu nesse período e olhou para o futuro, elaborou uma visão do potencial do país. O primeiro passo para implementar essa visão mostra que é possível não só ser carbono neutro, mas carbono negativo em 2050”, afirmou.

Veja o que o OC espera da COP27

Tasso Azevedo, coordenador da Rede MapBiomas e do OC, mostrou dados das emissões brasileiras – o país é o quinto maior emissor do mundo – e chamou a atenção para o aumento de 12% em um ano, chegando ao maior índice desde 2006. Ele explicou que o país não cumpriu a meta do Plano Nacional de Mudança Climática, que previa redução de 36,1% a 38,9% nas emissões em 2020, em relação ao projetado para aquele ano. Em vez de chegar aos 2,068 MTCO2e (milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente) que era o alvo, as emissões ficaram em 2,304 MTCO2e.

“Se zerarmos o desmatamento temos 77% de redução nas emissões. E com redução de emissões de metano é absolutamente possível até 2045 o Brasil ser carbono neutro”, afirmou. E, para ajudar nas remoções de gases-estufa da atmosfera e o país se tornar negativo em carbono, eles consideraram, por exemplo, as áreas protegidas, a restauração de florestas e o armazenamento de carbono no solo.

Especialistas do Observatório do Clima em evento paralelo na COP27.

Brenda Brito, doutora em ciência do direito e pesquisadora do Imazon, ressaltou que não é preciso abrir novas áreas para a agropecuária. “É possível aumentar a produção em áreas já abertas e reduzir áreas de pastagens”, afirmou. Ela mostrou também que existe 29% de áreas devolutas na Amazônia, que são extremamente pressionadas. E apresentou um gráfico em que, conforme o desmatamento reduzia ao longo dos anos, a produtividade agrícola aumentava na Amazônia, confirmando que as duas ações são compatíveis. “Nós sabemos como fazer. Mas sabemos também que não será fácil, precisa de vontade política. A sociedade civil resistiu a retrocessos no Executivo e no Congresso, e isso nos fortaleceu. A sociedade civil está madura para criticar também [o próximo governo] se necessário.”

Luís Fernando Guedes Pinto, doutor em fitotecnia e diretor executivo da SOS Mata Atlântica, divulgou um estudo animador sobre as emissões na Mata Atlântica – embora reconheça que a situação atual no país requer muita atenção, com desmontes realizados pelo governo federal, no Congresso e também em alguns governos estaduais, com o objetivo de flexibilizar a legislação ambiental.

Acesso o estudo aqui.

“Embora detenha apenas 27% do total da área agropecuária do Brasil, a Mata Atlântica, bioma presente em 15% da área terrestre do país, é responsável por aproximadamente a metade da produção de alimentos para consumo direto da população brasileira. Ainda assim, emite somente 26% do total de gases de efeito estufa do setor agropecuário. A combinação do fim do desmatamento com a restauração florestal e sistemas de produção agropecuária de baixo carbono permitem à Mata Atlântica se tornar neutra em carbono no setor de uso da terra em 2042. Essa oportunidade, combinada ao enfrentamento da dependência dos agrotóxicos, pode subsidiar um novo paradigma para sistemas alimentares saudáveis e sustentáveis para o Brasil e para a humanidade como um todo”.

Já Cristina Amorim, coordenadora de projetos do ClimaInfo, mostrou o aumento das emissões do setor de energia no Brasil nos últimos anos, com a compra de gás e investimento maior em termelétricas – 70 delas devem ser colocadas em funcionamento nos próximos 10 anos. “Precisamos parar de comprar gás e investir em biogás, hidrogênio e fazer a combinação de energia hidrelétrica, solar e eólica”, afirmou.

Dinaman Tuxá, coordenador da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e mestre em desenvolvimento sustentável, falou da importância de trazer para o debate os conhecimentos científicos e os tradicionais. “O Brasil hoje vive o pior cenário político, porém temos esperança. Precisamos do comprometimento do novo governo eleito para seguir essas diretrizes e os dados científicos e levar a pauta indígena como parte da solução para o combate às mudanças climáticas”, ressaltou.

Juliana Kerexu, do povo Mbya-Guarani e cacique da aldeia Tekoa Takuaty, reforçou a importância de a população mundial conhecer “a nossa realidade”. “A Mata Atlântica é uma das mais afetadas pelo desmatamento, pelo corte das árvores sagradas, inclusive as nossas araucárias. Creio que todos estamos aqui por um motivo, que é repensar nossas atitudes e como podemos contribuir e entender que a nossa mãe Terra precisa de ajuda. E essa luta não é só do meu povo, é de todos nós”, disse. Segundo Kerexu, a população indígena tem que estar dentro das leis de proteção. “A proteção do nosso território está diretamente ligada à forma tradicional que trazemos dos nossos antepassados para proteção dessas terras, matas e águas. Todos os dias nossos galhos são cortados. Todos os dias nossos troncos são cortados. Mas nunca arrancarão nossas raízes, que estão na Amazônia, nos Pampas, no Cerrado, no Pantanal e na nossa Mata Atlântica”, afirmou.

Sobre o que esperar do próximo governo, Tuxá ressaltou que “o contexto de desmonte foi muito danoso no atual governo e que o próximo não irá resolver todos os problemas”. “Mas a reconstrução começa agora. Estamos confiantes – para além da promessa de campanha de combater mudanças climáticas – foi anunciado Ministérios dos Povos Originários a ser conduzido por uma ou um indígena. Faremos parte desse processo de reconstrução”, disse.

Assista à transmissão completa do evento neste link:

 

* A SOS Mata Atlântica viajou para a COP 27 com apoio do programa Avião Solidário da Latam.

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