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Crise da água: Como estocar sem arriscar sua saúde

19 de novembro de 2014

Artigo de Marcia Hirota*, originalmente publicado no Blog do Planeta – A chuva voltou. Depois de meses de seca, a região sudeste teve um início de novembro chuvoso. Em algumas cidades choveu num único dia mais do que no mês de outubro inteiro. Alguns até estranharam acordar com o céu nublado e passar o dia com o barulho de chuva caindo. Na região da Avenida Paulista, onde fica a sede da Fundação SOS Mata Atlântica, era possível até encontrar uns mais animados andando sob a chuva a entoar “Ôoooo, a chuva voltou”. Outros correram para armazenar a água como fosse possível, a fim de criar assim um estoque para suportar os dias de torneiras secas. No município de Itu, que está em racionamento oficial há nove meses, armazenar a água da chuva virou questão de sobrevivência.

No fim das contas, a estiagem histórica alterou o cotidiano de muitas cidades e forçou mudanças de hábitos. Pode ainda não ter sido o suficiente para que a maioria das pessoas repensasse seu consumo, tão pouco para que governos apresentassem soluções para problemas preteridos há anos, como a poluição de importantes rios e mananciais cujas águas poderiam ser destinadas ao abastecimento. No entanto, muitas pessoas precisaram se adaptar, ao menos, ao corte da oferta de água, procurando assim outras fontes de abastecimento, como a perfuração de poços artesianos, a compra de água de caminhões-pipa e, nos dias de chuva, o armazenamento em casa. Novos hábitos com consequências ainda pouco abordadas, sobretudo se pensarmos nos impactos à saúde.

Recolher e armazenar a água da chuva realmente é uma ótima opção para usos menos nobres desse importante recurso, como regar plantas, lavar carros, materiais e equipamentos ou para tarefas de limpeza em geral. O mesmo vale para a água que possa ser reutilizada, como a de lavadoras de roupas ou até mesmo do banho, ideais para serem reaproveitadas na limpeza dos pisos e banheiros, por exemplo. Mas é essencial ter em mente que essa é uma água que não deve ser destinada ao consumo humano (ingestão, higiene pessoal, preparo de refeições etc.).

Pode até parecer que a água cai limpa do céu, transparente e potável. Entretanto, a única certeza que temos é que ela carrega consigo um pouco de tudo o que está na atmosfera, incluindo-se partículas sólidas e gases que ficam em suspensão. Em áreas mais urbanizadas, nas quais os níveis de poluição costumam ser altos, a qualidade dessa água é ainda mais prejudicada.

Outro cuidado indispensável é com o armazenamento. Mesmo que a água estocada seja destinada aos usos corretos, como os citados acima, é imprescindível que ela seja conservada em recipientes limpos, impermeabilizados e que possam ser fechados, evitando assim a proliferação de larvas de insetos, como é o caso do mosquito transmissor da dengue. Você até pode usar baldes, panelas, caixas de isopor e o material que estiver à mão para recolher a chuva. Agora, na hora de armazenar, valem apenas recipientes que atendam a essas características. Se puder investir um pouco, o ideal é criar um sistema de aproveitamento que inclua cisterna, filtros e algumas instalações hidráulicas que levem a água captada aos pontos desejados, geralmente torneiras de jardins, sanitários e lavanderias. O fundamental é que essa água nunca se misture à fornecida pela rede pública, que é potável, tendo assim reservatório e encanamento próprios.

Descartada o uso da água da chuva ao consumo humano, restam outras alternativas, como comprar água de caminhões-pipas ou captá-la por meio de poços artesianos, o que, como sabemos, já vem acontecendo. Aqui o cuidado fica para a certificação da procedência dessas águas.

A perfuração de poços e o uso de reservas subterrâneas são opções mais acessíveis para a captação de água para o abastecimento em períodos de seca, desde que isto ocorra de forma segura e atenda parâmetros técnicos que garantam a qualidade da água. Caso contrário, os riscos são muitos. Sem os cuidados necessários, é possível que sejam extraídas águas poluídas por esgoto, micro-organismos e até mesmo metais pesados. Há ainda a possibilidade da poluição e esgotamento dos aquíferos, impactos esses irreversíveis. Por isto, ao avaliar a construção de um poço como opção, o primeiro passo é procurar os órgãos responsáveis pelos estudos, licenças e cadastramento desses poços, evitando assim a perfuração clandestina. No caso do Estado de São Paulo, a tarefa é do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE).

A relação dos poços artesianos com a água comercializada por caminhões-pipa é direta, já que em sua maioria a captação ocorre por meio desse sistema. Se levarmos em conta os dados da Associação Brasileira de Águas Subterrâneas (Abas), que aponta 85% dos poços artesianos brasileiros como clandestinos, não fica difícil de imaginar o tamanho do problema. Assim, a única opção é contratar esse serviço de empresas que garantam a origem, a conservação e o transporte corretos da água. Caso contrário, colocará em risco a saúde de quem consumi-la, sem contar os impactos ambientais.

A tarefa não é fácil e os cuidados, como vimos, são muitos. Mas, em tempos de crise hídrica, não podemos trocar um problema por outro. Ou seja, na busca por soluções ao desabastecimento de água, é possível que estejamos criando precedentes para uma crise de saúde pública. Então, toda atenção é bem-vinda e todo cuidado é importante.

*Marcia Hirota é diretora-executiva da Fundação SOS Mata Atlântica.

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