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E se a água entrar em extinção?

2 de junho de 2014

Artigo de Malu Ribeiro*, originalmente publicado no jornal O Vale – A pergunta que dá título a esse artigo nos faz pensar no futuro. Afinal, para muitos, falar em falta de água no Brasil, até pouco tempo atrás, era coisa ou de vidente ou de pessimista. Nosso país é privilegiado em termos de recursos hídricos, pois cerca de 12% da água doce superficial do planeta passa por nossos rios. Abundância essa que sempre deixou a todos, incluindo governantes, com uma falsa sensação de segurança.

A região metropolitana de São Paulo passa hoje por uma crise de abastecimento de água. Enquanto escrevo esse artigo, 8,1 milhões de pessoas que dependem do Sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento de quase metade dessa região, não sabem ao certo se terão água em suas torneiras no futuro, tão pouco no presente.

A disponibilidade de água na região metropolitana de São Paulo é de 200 mil litros/habitante/ano, o que representa um décimo do valor indicado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Além disto, o Sistema Cantareira é essencial não apenas para o abastecimento público da Grande São Paulo, mas para o uso múltiplo da água nas regiões metropolitanas de Campinas, Piracicaba, Jundiaí e Sorocaba – uma população superior a 30,8 milhões de habitantes e responsável por 28% do PIB do país.

O fato é que o Sistema Cantareira, nas duas últimas décadas, perdeu grandes áreas de Mata Atlântica, desmatamento que contribuiu para diminuir a quantidade e a qualidade das águas, tanto superficiais quanto subterrâneas. A crise no abastecimento de água não se deve apenas ao calor recorde e ao menor índice de chuvas já registrado nos últimos 84 anos. Uma maior cobertura vegetal evitaria o desaparecimento de nascentes, aumentaria a vida útil dos reservatórios e prolongaria o tempo de abastecimento.

Resultado do reflorestamento feito pela Fundação SOS Mata Atlântica, em parceria com a Brasil Kirin, no Centro de Experimentos Florestais, em Itu, comprovam essa relação. Em 2012, apenas cinco anos depois do reflorestamento, foi verificado que o nível dos lençóis freáticos subiu 20% e o dos reservatórios, 5%.

Outra ação que pede urgência é o combate ao desperdício. A média do desperdício na rede pública no país é de 40%. São Paulo reduziu as perdas a 25,7%, o que ainda é muito para uma região que sofre com a seca. A ANA – Agência Nacional de Águas indica que a agricultura é responsável por 70% do consumo da água no país e é recordista de desperdício na irrigação. A indústria consome 7%, desperdiça menos e há anos paga pelo volume de água que capta. O cidadão é responsável por 10% do desperdício. Portanto, todos têm responsabilidade sobre esse tema.

A questão da água é estratégica. Vital para a nossa sobrevivência, é tema do presente e não do futuro, que precisa ser priorizado na agenda dos gestores públicos e da sociedade.

* Malu Ribeiro é coordenadora da Rede das Águas da Fundação SOS Mata Atlântica.

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